quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Como se faz com todo o cuidado a pipa que precisa voar

Em meio às notícias sobre campanha políticas, pesquisas, informações e jogos sujos que ronda o país neste momento de definição do nosso futuro. Em meio aos problemas do dia a dia e de transformações que vão acontecendo principalmente nos últimos anos em minha vida. Em meio a dias cheios de trabalho e responsabilidades novas que vão ganhando corpo a cada passo rumo à conquistas e sonhos que almejei para mim mesmo. De vez em quando há momentos em que se para, respira e se reflete sobre tudo isso que se está vivendo.

Uma das coisas que mais me chama atenção são minhas próprias palavras postadas no meu blog há mais de dois anos. Ler aquilo e ver como o que imaginei o que aconteceria, como estou hoje e como acho que estarei daqui a algum tempo. Tudo vem me acompanhando nesses dias ora frios ora quentes, nessas idas e vindas por São Paulo onde a cada instante uma história nova surge em minha cabeça, uma idéia nova, um novo plano pra realizar.

E o acaso me faz surpresas que deixei que acontecessem da maneira em que tiver que acontecer e em sua maioria tem me trazido coisas boas, experiências que por mais difíceis são parte do aprendizado, de cada passo que se dá rumo ao que chamamos de vida.

Hoje, no caminho de casa, já embarcando no metrô, recebo uma ligação/convite de minha amiga e irmã Bruna para fazermos alguma coisa, qualquer coisa, um lanche, um teatro, uma conversa, coisas que gosto muito de fazer com ela. Nesse pequeno intervalo de passos o meu dia mudou, e já vinha sendo bom, por sinal.

Depois de conversarmos sobre nós, depois de ler coisas sobre mães e como isso se constrói em cada nova etapa de nossas vidas, cordões umbilicais rompidos, responsabilidades como filhos que somos e como fomos preparados para enfrentar cada situação que nos apresenta à frente e lidar com elas.

Em meio a tudo isso, o acaso nos levou a uma sala de cinema em busca de alguma história que pudesse nos divertir, acalentar e fazer sentir bem. Em cartaz, o filme Léo e Bia de Oswaldo Montenegro que por motivos pessoais escolhi para que víssemos e falar sobre depois com pessoas importantes.

A grata surpresa então se apresenta de maneira sublime, tocante, emocionante e que nos tomou em cheio por tudo aquilo que havíamos dito momentos antes de entrar naquela sala. O filme, nem é um filme como um cinema tradicional, parece-se mais como um teatro travestido de cinema, inspirado claramente em obras de Lars Von Trier, onde o espaço habitado não é necessariamente visto por nós, mas sentido. E o filme nos fez justamente sentir tudo aquilo que estamos passando, como a relação mãe/filha de cumplicidade, de insegurança, de amor que pode ser chamado por muitas outras coisas, e até em sua maioria adjetivos pejorativos, mas ainda assim amor. E a liberdade que se busca e a luta por seu sonho, por seguir atrás disso até de modo ingênuo. A cada palavra dita, a cada música cantada, aquilo ressoava como se pudesse fazer sentido naqueles que estavam lá, assistindo uma história que ocorreu décadas antes, num contexto completamente diferente do nosso dia a dia, em um mundo onde se acreditava em utopias.

Mas a história se passava como se estivéssemos à beira do mar, e cada onda que molhava nossos pés era como se também os lavasse e criava uma re-significação impressionante. O momento do filme era outro, o contexto do filme era outro, mas toca porque é ainda vivido por aqueles que têm sonhos e que buscam um vôo atrás deles. Os medos, anseios e as limitações estão todas lá, ainda são as mesmas, por mais que os jovens de hoje sejam bem mais velhos do que aqueles representados na história. E o desejo e a cumplicidade entre eles tornam tudo mais real para nós, que não fizemos parte daquela geração.

O filme termina com uma sensação de catarse e anestesia por ter sido tão surpreendente em quanto forma de arte, daqueles que se fica pensando um bom tempo com os créditos surgindo na tela e a sensação que não gostaríamos de abandonar aquela história que nos foi mostrada.

Na volta pra casa um silêncio cúmplice mas que demonstrava o que nos é querido, desejado, sonhado por uma geração de garotos ingênuos que resolvem sair do ninho para buscar a vida e o mundo. A certeza que ainda existe o sonho e a vontade, e que isso é o primeiro passo para se alcançá-los.

Quando Oswaldo Montenegro nos cantou: Como castelos nascem dos sonhos/Pra no real achar seu lugar/Como se faz com todo o cuidado a pipa que precisa voar/cuidar de amor exige maestria. E Léo, Bia, Maria Luiza e Stela souberam amar.



Para: Bia, Maria Luiza, Bruna e Stela.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Is this right?

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O lobo e a lua

E meio à descida da rua, ela me acompanhava me fitando, como há muito tempo não fazia.

Eu dei aquele olhar de reencontro, de surpresa boa que aconteceu.

Na chegada em casa, o ranger do portão despertou o latido que vinha do quintal.

Entrei, em meio ao escuro, sendo recebido carinhosamente em casa pelos cachorros.

E eu só olhando pra cima, interessado em algo bem distante.

Sentei no banco com um cigarro na mão, na outra, os cães que insistiam em trocar afagos.

Mal podendo conter o sorriso bobo do nosso reencontro, eu só prestava atenção para o céu.

Dessa vez o silêncio durou bastante.

Fiquei olhando os cachorros como me perguntando se eles não estavam notando sua presença.

Um deles pôs as patas sobre minhas coxas e me olhou como eu olhava pra lua.
Ficamos nos observando como se esperasse alguma conversa.

Acariciei suas orelhas e perguntei:

- Por que vocês não olham mais pra lua?

- Eles foram domesticados, ela me respondeu.

Feliz com a quebra do silêncio, voltei a fitá-la

- Bom te ver de novo.

- Poisé, muito tempo, estás diferente.

- Eu sei, tenho me sentido assim mesmo, desde a última vez que nos vimos, na beira da praia, lembra?

- Claro que sim, como poderia não lembrar?

- Andei meio recluso, quieto, é verdade. Tentando me encontrar, me situar em algum lugar.

- Tenho percebido, mesmo. Mas essa inquietação toda tem motivo?

- Tem sim, deve ser a falta de lugar, meu lugar, que ainda não achei. Agora tenho me sentido meio como você, assim, em órbita de alguma coisa, só não sei o que.

- Mas eu tenho o meu lugar, é aqui em cima. Eu nunca saio de perto de vocês. Alguns dizem que aos poucos sim, mas é bem pouquinho mesmo.

- É verdade. Mas tenho tentado me sentir como um camelo atravessando um deserto. Paciência é a chave.

- É, tenho certeza que sim. Faz parte do teu novo caminho. Lembra de quantos caminhos um homem tem que caminhar antes de ser chamado homem, não?

- Lembro sim. O problema não são os caminhos. Mas por vezes me sinto um lobo em meio aos cachorros, domesticados, correndo atrás dos próprios rabos.

- Mas sabes o que te diferencia deles, então?

- Sei sim. Eu sempre olho pra ti.

- É muito fácil cair na armadilha de ser domesticado e estar perto de afago e comida. Mas tudo isso tem um preço, sabes disso. Enquanto uivares para a Lua, vais te lembrar do que és e do que queres.

Concordei com a cabeça e olhei os cães ao meu redor.

Por que vocês não olham mais pra lua? Perguntei de novo.

Me levantei e servi um pouco de comida pra eles.

Eles foram correndo felizes em direção aos seus comedouros.

E eu, desapontado, olhei pra lua e dei de ombros.

Ela piscou pra mim como se dissesse “vai ser sempre assim”

Respirei fundo e fechei os olhos, como se sentisse a luz da lua em meu rosto, como só os loucos e os lobos fazem.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Distante navegante...

Em suspensão. É como tudo tem andado. Em suspensão. Talvez seja parte da travessia que tudo não pareça seguro nem estável, mas algumas coisas têm acontecido e me transformado de tal forma que uma mudança de alguns meses me parecem séculos.
É como se eu não tivesse tempo mais de me estabelecer e definir quem sou eu. Tudo está uma constante transformação, e eu não consigo mais me imaginar como estarei daqui a alguns meses. Em suspensão, esperando as coisas acontecerem e triturarem seus planos. Mas como isso pode ser uma coisa boa?
Recentemente me senti em meio a dois sentimentos de volta. A dois lugares aos quais pertenço agora, foi uma mistura louca e completamente conflitante. Não me senti pertencendo a nada, nem ninguém e isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Não é uma coisa que me definha, pelo contrário, acho que eu mesmo estou atrás disso. Até quando isso vai ou onde vai parar? Faço a menor idéia, e sinceramente, não quero mesmo saber. Vamos ao sabor do vento e ver o que acontece.
Conhecer esses limites dá a dimensão certa do que eu quero e posso esperar o que aconteça e daqui pra adiante vai me alimentar a curiosidade de saber o que realmente me aguarda.
Por enquanto, o que faz feliz é ver a tempestade chegando a guinar em direção a ela. Outros se assustam, mas eu tou chamando isso de viver.
E que caia a água da chuva e leve junto algumas lágrimas e sujeiras incrustadas no barco pra ir de novo depois.

Deixe-me ir, preciso andar...

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A estória de Yo La Tango

E então, tudo mudou de novo

Os novos planos se tornaram velhos

Os velhos se ajeitaram de novo

E agora tem muita estória pela frente

E como toda estória, tem trilha sonora

A minha estória de São Paulo começa assim:

Umas imagens desfocadas de alguém caminhando com uma mala, bem de manhã

O sol criando força no horizonte e mostrando a cara

E que continua vindo até ao olharmos para ele, a nossa visão branqueia

E da janela do avião eu vejo aquela mata ficar cada vez menor

E a música que rola ao fundo é essa:

We stared at the sun, too long

until the shapes before our eyes

turned into the sun, in our eyes

We lied to ourselves for awhile

in our usual style

I wish we could ride

To ourselves again




"E nós tentamos, tentamos com toda a nossa força

Nós botamos o teatro abaixo

Corremos apressado o nosso caminho

Demos tão duro!"

Sem dúvida, Mr. Ira

Você sabe por que?

Sabe quando se anda assim

Olhando pra cima, devagar

Imaginado coisas, infinitas

E te passa muita idéia pela cabeça

Muita mesmo

Parece que tás sonhando e os sonhos se projetam nas nuvens

Por trás dos prédios, como filme

Aquela imagem monocromática se mexendo

Até que alguém te esbarra porque você não tava prestando atenção na rua

Coisas meio sem razão

Mas vai saber


Nessa fração de segundo tudo mudou na sua vida

Novos planos, novos finais de novela

Novas mulheres

Por alguns segundos

E a realidade que te insiste em puxar o tapete

Da buzina do carro da rua meio atravessada

Ah, o acaso que me assusta

Ou minha cabeça

Mas não adianta que ela não pára nunca

Por mais que eu pare, que deite

Ela continuar a me levar nos lugares mais improváveis, inóspitos, curiosos,

Ao lado de pessoas que piscaram “entrar online”

Sou levado aos momentos mais insanos

Eu, com um guarda-chuva e a cara pintada

E o canhão de luz que revela o cantor

Eu

E a banda atrás, e as imagens projetadas em pedaços de panos rasgados

Criando um calendoscópio de imagens de chuva, de noite, da lua

Ao mesmo tempo em que a subida me toma todo o ar de dentro

E me faz suar, mesmo que o tempo peça casaco

Realidade e imaginação que se entrelaçam como se fosse rede

E eu, em meio a tudo isso, continuo passando, tentando e acordando

E querendo dormir, sonhando com o palco, com a vida planejada

E ainda no mundo das idéias

E tenho estado por lá

Junto com Judy e seus sonhos

Ou com o suspiro dos anjos

Pode ser que eu esteja mesmo assim

Indo bem ali e já volto

Ou pode ser que eu fique por aqui

Vai saber

Mas eu escolhi

Eu quis estar aqui

E sim, vou continuar seguindo

Sonhando bastante

Porque tenho muito o que sonhar ainda

Já te disse que a minha vida é papel em branco, já não?

Você sabe porque eu estou aqui, não?

Sim,

Eu sei que você sabe o porquê.

sábado, 3 de outubro de 2009

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Filme sem nome...

E a cidade então estranha

Foi ficando com cara de quintal

E as ruas bloqueadas a cada passo se abrem

Criam imagem

Surgem à mente

E o que era um espasmo, uma loucura

Uma doidice, como dizem meus pares

Torna-se um rumo, uma estória

E começa a ter o que se falar

As letrinhas pararam de aparecer

O começo do primeiro ato surge

Como manhã

Como avião pousando

Como pessoa acordando

E vocês vêm e conhecem

E apesar de nenhuma intimidade

É o início da relação

Que é um pano branco com imagens que se movimentam

É tudo muito fresco

Com sabor de prato novo

De surpresa

Que não se sabe nada

E nem se quer saber

Que venha logo o segundo ato desta estória

Que nos indique algum futuro

Qualquer futuro

E se comece, recomece

Mas tu sabes

Só tu sabes o que estás atrás

Que por mais que seja o escuro

O desconhecido

O desencontro que te espera na próxima esquina

És disso que estás atrás

Então que parem as letrinhas

E o título que não existe

E se comece o filme

E se comece a estória de verdade

terça-feira, 25 de agosto de 2009

sábado, 22 de agosto de 2009

Folha em branco

Quando eu comecei a desenhar

Não imaginei que seria assim

Construir uma vida

Com tantos planos na cabeça

Sempre surge a dúvida

E o embaraço

E o confronto

E achar que é preciso fazer tudo

Mas tudo o que está aqui?

Rabisco

Amasso o papel

Recomeço

E o que tenho?

Mil idéias

Pra onde?

Rabisco e amasso o papel

Deixo pendurado na parede

Continuo desenhando

E penduro na parede

E outra folha

De repente

Os rabiscos me mostram um caminho

A idéia?

Será?

É isso

Uma luz, uma epifania de novo!

E vou e volto

Desenho o céu todo

E recomeço

Os rabiscos pendurados na parede sempre me guiam

Pra tentar de novo

E eu tento com toda minha força

Com a folha em branco

Ali, nova na sua frente

Sem nada, imaculada

Eu posso fazer qualquer coisa

Qualquer

E eu só preciso de uma coisa

Além das minhas mil idéias

Só uma

Um lápis

domingo, 16 de agosto de 2009

Chegadas & Partidas

Nesse momento meio maluco que eu tou passando, de largar tudo e vir tentar viver em um local completamente novo, não me restou tempo nem cabeça para escrever alguma coisa. Minha amiga Ana Lídia me indicou para uma reportagem sobre o dia dos pais e eu aceitei a entrevista junto com o meu pai. A reportagem foi feita na sexta e publicada no sábado. Não tive tempo de ler a reportagem no papel, entrei no avião momento antes de lerem o jornal no aeroporto mesmo. Quando cheguei, li e fiquei bastante emocionado. Não era preciso escrever nada.

Publicada pelo Diário do Pará no dia 8/8/9 - Dia da minha viagem


Dia dos pais: distância superada pelo amor

O estádio está lotado. A arquibancada estremece com a torcida pelos times que jogam. Gritos e hinos são sintomas da paixão que move milhares de pessoas ao Mangueirão. E, em meio à euforia, o time faz um gol. Coração dispara e um abraço no parceiro ao lado sela a alegria de presenciar o gol. Para Victor Palheta, nada melhor que dar um abraço no amigo que sempre está presente nas vitórias do time e da vida, o pai, Clélio Palheta.

Os pais de Victor se separaram quando ele tinha menos de um ano, mas a distância não foi empecilho para que Clélio e o filho descobrissem o futebol e a música em comum. O pai é compositor e adora música brasileira, mas tem uma queda pelos rocks setencistas, que são os favoritos do filho. Noites regadas a Pink Floyd e Beatles já embalaram essa relação.

Clélio conta que a amizade com a mãe do filho foi muito importante para que o contato com Victor não sofresse abalos. “Eu sempre fui amigo dela e isso contribuiu para que a distância fosse minimizada”. Ele diz ter sentido receio do que seria seu relacionamento com Victor quando se separou da esposa.

Para participar dos passos do filho, Clélio ia buscar o garoto na creche. “De lá eu encostava nas praças para brincar com ele. Nós sempre fazíamos programações para não haver qualquer distanciamento entre nós”.

Clélio fala da infância do filho com certa saudade e diz que queria ter partilhado mais da vida dele, “até das tolices”. Mas, para ele, a separação não foi problema para que o amor e amizade com Victor se intensificassem.

Esse ano, Clélio não comemora o Dia dos Pais com o filho. É que ele segue para São Paulo, onde dará continuidade à profissão. O pai diz que não irá chorar, mas ficará emocionado. Clélio foi criado no antigo sistema de que homem não chora, mas se emociona. “Eu só quero que meu filho tenha muito sucesso”, fala.

Ele diz que essa distância não afetará a relação, cuja separação nunca foi um diferencial para que as conversas, as brincadeiras e os incontáveis almoços acontecessem nos finas de semana ou nas férias, quando pai e filho ganhavam a estrada rumo à praia.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Duplissonhando...

Era começo de madrugada, na beira da praia, um cigarro aceso e as ondas que tocavam os pés descalços. Nos trejeitos, alguém que já tinha bebido alguma coisa o dia inteiro. A baforada e o olhar contemplativo pro céu que não se via estrelado há um bom tempo por conta da chuva naquela região.

Era uma noite bonita e bastante clara pela lua e pela ausência de luminosidade artificial próxima, que eram intercalados por faróis de automóveis indo e vindo e pelos locais de festa distantes daquele lugar.

Eu olhava pro céu como sempre gostava e há tempos não fazia. Ali, meio bêbado pelo dia todo, ouvi sem me assustar uma voz feminina chamar.

- Que sorriso estranho esse no seu rosto?

Olhei pra cima e a vi, a lua, sorrindo, bem grande, avermelhava o céu de tão intensa. Sorri com sorriso de mostrar os dentes, como se encontrasse alguém há muito querido.

- Quanto tempo não nos falamos?

- É verdade. Um longo período de silêncio e também que não te vejo por aí, desprendido. O que se passa?

- Ah, desprendimento é realmente algo que não está em mim agora. Só ando sonhando sobre meu futuro e tendo que me desfazer de coisas que nem sei como, só sei quando.

- Sonhando sobre o futuro? Interessante. Tem que ter algo de liberdade pra se fazer isso. Pelo visto já tens, o que falta fazer?

- Na verdade, nada. Há muito tempo, me sinto solto por dentro, não consigo me apegar a nada nem a ninguém, é bem verdade. Ando contando com desejos improváveis e sonhos nada reais...

- Sonhos nunca foram muito reais. Tu podes sem problema continuar com eles e viver sossegado.

- É verdade, mas eles têm me tomado tempo por demais. Até que certo ponto posso ficar assim, desejando e sonhando feito louco?

- Até achares que deves. Relaxa, baby.

- Ah, mas a ansiedade tá me devorando. O que vai acontecer depois? Será que posso esperar por isso? E quando chegar, e tudo aquilo que desejei, que sonhei repetidamente que ia acontecer, da mesma forma, com a mesma música, com as mesmas palavras... Os momentos, aqueles momentos, sabe? que te mudam por completo, estão vindo, estão chegando, estão logo ali, depois de virar a esquina. Mas...

- Mas?

- Será?

- Não se sabe. Nunca se sabe. Essas coisas são imprevisíveis. Mas tu já aprendeste como é que funciona tudo isso, não? E eu sei que não tens mais medo de ser sincero até contigo mesmo, o que é mais difícil. Vai fazer as coisas acontecerem e falar abertamente sobre, como tu sempre fizeste. Eu sei que vai.

- É que isso realmente me importa. O nervosismo e ansiedade aqui estão realmente ficando, me fazendo ficar louco, pensando, desejando.

- Deseje, deseje bem. Deseje com a alma, que isso vai te trazer mais pra próximo daquilo que tu és, e o que eu sempre vi. Nada de errado com agora, não. Mas eu sei como és, de verdade.

- Essas coisas se eu falo, ninguém me diz nada, somente tu. Ninguém sabe de ti aí longe e os poucos que conhecem a história realmente não se dão conta do que isso é pra mim, na verdade. Nem tu, acredito.

- Ah, mas sei sim. Apesar de tuas dúvidas e da maior parte do meu silêncio. Sabes que estarei bem aqui, nesse lugar e sabes como chegar até mim.

- Sei que sim. Sei que te verei em breve, ao dobrar a esquina. Posso chegar mais perto, sei sim. E essa é minha grande vontade, sempre foi. Mas fala pra ninguém, não! Já me acham meio maluco no normal, imagine se ficarem sabendo dessas coisas.

- Desejos e sonhos não são para ter vergonha de falar e nem esconder. Podes falar abertamente sobre isso, ainda melhor quando for de noite. As coisas ficam mais fáceis de acreditar. Tou dizendo.

- Ah, a noite. O que seria de mim sem ela? A manhã que me desculpe, mas prefiro a noite. Quando te conheci e quando sempre falo contigo. Por aí, perdido, sozinho no carro, no meio da rua, ou olhando as estrelas na beira de uma praia, não teria coisa que me deixe mais contente do que falar contigo. Talvez seja loucura, e até acredito que seja. Mas não vou deixar de sorrir desta forma aqui e nem de desejar te ver de novo e ficar pensando o que vou te dizer da próxima vez que nos falarmos.

- E quando vai ser?

- Não sei bem ao certo. Mas, logo. Bem em breve...

Sorri e apaguei o cigarro continuando sem saber do futuro, mas aquele sorriso da despedida não se via há tempos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

terça-feira, 9 de junho de 2009

Abra los ojos...

O que é mais fácil:

Esperar por alguém que não se conhece

Ou por alguém que já se ama?

Acordar todo o dia e pensar, pensar e pensar

E imaginar como seria?

Um rosto que se conhece

Ou que nunca se viu, que só imagina

Fazer planos malucos que só existem dentro da tua cabeça

De viagens loucas, paradisíacas, com happy-ends

Ou esperar o próximo encontro?

O que é mais difícil?

Acordar todo dia e lembrar onde é que está?

Ou imaginar que pode andar perto ou bem longe?

De rostos que mudam a cada semana, a cada noite

E que vêm com intensidade de tempestade

E vão como a água que escorre pelas ruas

E dez meses se passam e o que é mais fácil?

Sair por aí, procurando

Ou esperar?

Sabe-se lá como

Mas muito bem o porquê

Que mesmo o mais louco dos racionais

Ao se confrontar com a dúvida, dirá

Sim, te espero!


(Para Marcel & Gabi)

terça-feira, 12 de maio de 2009

O medo do astronauta

Imagino o sentimento de navegadores há mais de 500 anos

Partindo em viagens cujo destino era tão somente o desconhecido

Qual sentimento?

Deveria ser um misto de medo com curiosidade de criança

Aquela que mete o dedo na tomada

Descobrindo e aprendendo

O frio na barriga que dá

A ansiedade

Como a fila de uma montanha-russa

Você pode até imaginar o que pode acontecer

Mas nunca se prevê o que se sente

Medo

Mas medo é bom

Como o último passo antes de pular do trampolim

E mesmo assim pula

E pega choque

E descobre um mundo completamente novo

Com pessoas novas

E assim se cresce

E se conhece

Um universo inteiro

Mas que tá tudo aqui dentro mesmo

Houston já começou a contar

Agora é só respirar fundo

E ir

terça-feira, 14 de abril de 2009

Sei o caminho dos barcos... O outro lado


Motion Picture Soundtrack - Radiohead
Imagem surrupiada de Chico cavalcante

Nessa vida, somos como barcos

E como barcos, sempre precisamos navegar

Fomos feitos para isso

Chega um dia em que o laço é desfeito no porto

E temos que sair por aí

Cortando rios calmos, como se tivessem sido passados à ferro

Atravessando mares e oceanos

Por vezes agitados, cheio de ondas gigantes

Correntes fortes e escuridão

Mas mesmo em dia de Lua Nova

Que não se enxerga um palmo à sua frente

Dá pra continuar a trilhar seu caminho e chegar ao lugar que se quer

Porque dá pra ver lá de longe a luz da cidade grande

Rasgando o céu limitado por mato e firmamento

Iluminado de uma cor laranja-aurora

E é só seguir o rumo do rio


Sei que sou um barco porque sou amazônida

E preciso sempre estar próximo a um rio pra me sentir bem

Me sentir perto da minha terra, aliás da minha água que é a Amazônia


Mas eu sei que sou barco porque preciso de rio

E sei que o rio que tem em minha cidade é que vai me levar por aí

E que vai dar no mar

Que vai me levar a onde for possível ir

E principalmente, onde for querido ir

E posso, porque sou barco, não sou canoa

E o mesmo rio que me leva

Vai ser o rio que sempre vai me trazer

De volta ao meu porto

segunda-feira, 30 de março de 2009

1 ano de blog

Amanhã fará um ano desde que eu postei a primeira mensagem aqui no blog. Confesso que não era muito fã dessas coisas até que tomei gosto por mostrar pras pessoas aquilo que eu escrevia.

Antes era raro alguém ler alguma coisa minha, mesmo os mais próximos e agora já falo abertamente sobre muita coisa do que penso, o que é uma evolução, então ponto para o blog.

Vou procurar fazer algumas mudanças temáticas, por vezes acho isso aqui muito obscuro e deprê, mas ninguém consegue ser qualquer coisa o tempo inteiro. Então vou mesclar com outros temas, coisa mais light e não vai ficar restrito só a texto.

No mais, gostaria de agradecer ao feedback que tenho recebido daqueles que visitam o blog frequentemente e ajudou bastante a dar continuidade a um projeto que começou por muito acaso e agora me faz pensar bastante sobre.

É isto, fiquem à vontade e até breve.

Beijos a todos.

Ingressos guardados

Todo e qualquer objeto tem por trás um pensamento

Uma idéia

Todo e qualquer objeto teve uma idéia antes

Alguém pensou como fazê-lo

Alguém imputou algum significado

Significado que ao chegar em mãos de outro

Já se transformou em algo completamente diferente

Em relacionamento e lembranças

Em história

Como objetos pertencentes a um povo que já não existe

E que é a única coisa que nos conecta a ele

E assim podemos conhecer sua vida

Seus costumes e sua cultura

E aprender com isso

E se sentir parte

E traduzir isso pra o que somos hoje

Objetos falam

Como os ingressos que guardo

Um em especial entrou pra coleção

E um pequeno pedaço de papel

Que me transporta pra longe

O seu objeto é tão somente eu

E minha história

Uma história de pelo menos onze anos

Cheia de percursos e percalços

Mas uma vida feliz

Exatamente feliz

Me traz recordações de amigos que conheci durante esse tempo

De amigos que conheci no mesmo tempo

Os mesmos que estavam ao meu lado

E sempre caminharam juntos

Tenho tido essa epifania desde então

E desde que ouvi uma única música

Há 11 anos pela primeira vez

E domingo passado pela última vez

E os amigos estavam ao meu lado

Não, não foi só a emoção de um fã

Foi a emoção de uma época da minha vida que estava ali

Ao meu lado

E que vou carregar comigo aconteça o que acontecer

Esteja aqui ou num barco cruzando o pacífico

Tudo isso nunca será esquecido

Mas sempre será lembrado quando olhar

Para um simples pedaço de papel

quarta-feira, 25 de março de 2009

Just A Thought

Então, meu bem

Engraçado como essas coisas são

Faz alguns dias que eu estou em silêncio

Pensativo e avoado

Digerindo, digerindo e digerindo

Tentando entender o que que me houve

Mas não vêm palavras

Só luzes, sons

E cores! Muitas cores!

Parecia que eu tinha caído num rio

Cheio de gente

E no fundo tinha uma pirâmide luminosa

Que hipnotizava e me sugava

Eu tava indefeso, inquieto e nervoso

Mas não conseguia me mexer

Deixei levar, mas gritava que nem louco

Claro que minha voz não saía

Era abafada por tudo

E sons malucos dentro da minha cabeça

Me deixavam mais desnorteado ainda

Segui afundando

E comecei a notar que tinham pessoas ao meu lado

Pessoas que não via há anos, desde a infância até hoje

E outras que nem conhecia, mas que sentia certa familiaridade

Como se soubesse que iriam entrar na minha vida

Meu passado e meu futuro?

Sei lá

Mas todos meus amigos estavam lá

E deixei de me sentir sozinho

Abracei a todos e eu estava molhado

Completamente encharcado

Mas feliz por estar ali

Então as luzes se intensificaram

Vinham direto em minha direção

Eram luzes fortes, vermelhas, azuis e verdes

Quase me cegavam

E me atraíam

O som ensurdecedor

Melancólico, insano e repetitivo

Me enlouquecia

Eu não conseguia pensar em nada

E fui me aproximando de tudo aquilo

E vi dois olhos esquisitos, gigantes

Me olhavam e me deixavam perturbado

Me atraíam para uma parte escura

Só conseguia perceber alguns peixes estranhos

Nadando e fugindo de vermes querendo devorá-los

E os vermes vieram atrás de mim

Eu continuei nadando

Senti que os vermes me queriam

E o que eu tinha?

Uma arma e um pacote de sanduíches

E mais nada!

E mais nada!

Vocês me querem?

Então venham me encontrar!

Eu tou pronto!

E as luzes se tornaram brancas

E mais intensas

O som mais distorcido e frenético

Que porra eu tou fazendo aqui?

E as luzes apagaram

O som calou

Eu cheguei no fundo e escapei

E não havia o que temer nem o que desconfiar