segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O Último Episódio

Não sabia seu nome
Mas podia ser Ulisses, ou qualquer coisa
Era tarde já, tinha chuva
Tinha bebido
E tinha outro carro
E tinha dias cada vez piores
Os amigos chocados
A família perplexa
Mas ele permanecia ali, deitado
Mudo, sedado
Com ajuda de aparelhos
Em um pedaço de pano verde
E esparadrapos grudados na cabeça
E o tempo apagava a história
O segundo contra as décadas
Já não sabia seu nome
Quando ele despertou
E se levantou
Estava vestido como fim de festa
Camisa amassada e aberta, não tinha mais gravata
Smoking preto
Descalço
Saiu da sala
Caminhando lentamente por entre as pessoas
Que tristes não o viam
E ele permaneceu impávido
Andava
E não olhava mais pra trás
Rumo ao topo do prédio
Subiu as escadas devagar
Como sonâmbulo
E ao manter-se em pé no parapeito
Um cigarro aceso na mão
Era a primeira vez que ele olhava pra cima
Olhou a lua, linda
Sentiu a noite sem frio
E olhou a cidade
Um seio de índia era modelado pelos rios
O cigarro acabou
Ele sorriu
Sorriu e pulou
E foi caindo
Vagarosamente
De braços abertos
Sorrindo
E voou
Voou como Peter Pan
E foi rasante pela cidade iluminada de luzes amarelas
Lembrou de cada pedaço de vida e de história que vivera ali
E foi rumo ao rio
Sobrevoando, sentindo o vento na cara
Passava próximo à água
A tocava como se estivesse sentado em uma canoa
E fazia caminho como se fosse barco
Mas voava
E ia cada vez mais alto
Sorria
E olhava a lua
Ouviu o chamado que ela lhe fazia
E subia
Ia em sua direção
Foi ficando cada vez menor à minha vista
Lentamente foi se tornando um ponto sobre ela
Até que sumiu
E não sabiam seu nome mais
Mas sabiam que ele estava lá ainda
Olhando pra nós
E sorrindo

Um comentário:

Jazz disse...

Lindo texto. Peter pan que fuma... e virou estrela? :P Poétique.