segunda-feira, 9 de março de 2009

A benção, minha mãe

Prometo que é a última vez que toco neste assunto
E talvez seja a primeira vez que eu fale dessa forma
Mas na última sexta-feira eu tive uma epifania
Lembrei de um ingresso de futebol que sempre deixei guardado no meu guarda-roupa
Dia cinco de março de 2008
O Remo perdeu, era contra um time fraco, tinha a vantagem e foi eliminado
Mas isso não é sobre futebol
Porque foi a primeira vez que fui a um estádio e não consegui ver o jogo
Não conseguia pensar em nada
Talvez nem eu e nem os jogadores do meu time
Porque não houve futebol aquele dia
Acho que os jogadores também não conseguiam pensar em nada
Mas eu guardo até hoje aquele ingresso
Que nunca me lembra de futebol
E sim do dia que comecei a me tornar de verdade
Virar gente, homem, adulto de vez
Tive que dar conta da vida de outra pessoa
Nesse dia minha mãe voltou do médico com um diagnóstico
Ela tava com depressão
E eu que nunca tinha vivido isso de verdade
Tive que dar conta a sozinho
E vi e ouvi coisas que me marcaram
Eu não tinha noção do que era essa doença
E acho que muitas pessoas não têm
Que se confunde com tristeza profunda ou outra coisa parecida
Posso dizer que é muito pior
E foi um mês pauleira também
Somatizaram-se outras coisas também
Que só ajudaram a criar um cenário desagradável
Por vezes pensei que não iria dar conta
Não era raro eu acordar no meio da noite pensando que aquilo não fosse verdade
E pedi ajuda
E tive ajuda
E agradeço demais as pessoas que estiveram comigo nessa fase
Fisicamente ou psicologicamente, mas que me ajudaram
E deu tudo certo, a vida voltou ao normal
Mas alguma coisa tinha mudado
Me dei conta que tinha sido eu
E na última sexta-feira eu tive uma epifania
Quando levei minha mãe a uma festa e ela se divertiu
Com suas amiguinhas
Dançamos a noite toda, até parar a música
Lembrei de tudo o que tinha acontecido
E fiquei olhando pra ela, emocionado
E muito mas muito feliz
Alegria que foi percebida pelos meus amigos depois
Ainda mais quando soube que o nome dela estaria domingo nos dois maiores jornais da cidade
Falando sobre o seu trabalho
Não estava cabendo em mim
E sábado, quando recebi uma notícia maravilhosa de uma amiga
Não me agüentei, bêbado e fantasiado
Chorei
Chorei por tudo o que me aconteceu nesse último ano
E o que a vida tinha se tornado
Acho que foi a primeira vez depois de toda essa história que isso me aconteceu
E me sinto muito feliz
Portanto, quero dedicar ainda este dia das mulheres
À mais especial de todas
A quem devo tudo
E que até quando não quer
Me ensina a viver e me faz amadurecer de verdade
Que quer me dar carinho como a uma criança
Mas sabe o que criou
A benção, minha mãe

3 comentários:

poucaspalavras disse...

que lindo. sou tua fã. esse texto emociona.

Anônimo disse...

Victor,
Seu depoimento tem um sentimento cristalino e belo. As experiências que a vida te proporcionou no último ano enriqueceram o que você é hoje. E principalmente, são um farol para o que você será amanhã.
Meu sincero bem querer para você e a sua querida mãe.
Com admiração,
Carlos Maciel

Gabriela disse...

Vitor, a Tia Lu é realmente uma pessoal especial, uma mulher de quem eu tenho muito orgulho de conhecer. E tu és um pedacinho dela também, um homem ou um menino? não sei... Mas com certeza um cara bacana... Bjos...
Pimbinha(so dessa vez...)