quarta-feira, 23 de abril de 2008

O ônibus azul

Hoje, acordei um pouco diferente. Estava me sentindo estranho. Não sabia dizer onde eu estava. Era um quarto grande e branco, tudo era muito branco. O quarto tinha um colchão imenso e um telefone próximo. Só tinha uma porta e uma luz em cima. Caminhei para a porta, abri e encontrei um corredor enorme à minha esquerda e tinha um espelho no meu lado direito. Me olhei no espelho e então eu percebi: Eu estava totalmente preto, como se fosse uma forma sem rosto, sem marcas, nem definições. Era simplesmente uma forma preta. Como poderia ter me transformado nesta forma que estava nesse mundo estranho e sem cor?

Caminhei em direção do corredor à minha esquerda, era um longo corredor muito claro, muito branco. Depois de algum tempo tentando achar o fim, cheguei até uma porta azul. Não pensei duas vezes e tentei sair desse pesadelo através da porta azul. Era uma festa com várias formas humanas brancas que pareciam homens e formas azuis que pareciam mulheres, vários deles, mas o mesmo formato. A música era angustiante e intrigante, falava algo que eu não entendia, era uma língua estranha, mas eu entendia que aquilo me chamava pra me tornar branco ou azul. O ambiente era completamente estranho, como se estivéssemos dentro de um grande cubo branco, ou era azul? Não conseguia dizer...

Continuei andando e olhando as pessoas, eu era o único diferente, mas aquilo parecia não ter a menor importância. Eu era invisível! – pensei – ou então estava morto? Será que a morte é isto? Tudo que eu conseguia ver eram formas brancas e azuis, paredes e lugares sem saída. O cubo era gigantesco, e a multidão de homens e mulheres formas não terminava, nem o lugar. As formas se beijavam, dançavam aquela música alucinógena. Lembrei-me que as espécies têm visões diferentes, uns vêem cor, outros não. Era isso então que eu tinha me tornado, um outro ser, mas não humano? Qual seria então o jeito certo, o jeito real de ver as coisas?

Sentei-me num único banco, branco, vazio, apesar de toda aquela gente. Tentei achar alguma diferença entre aqueles seres humanos ou não, sei lá. Eu era uma forma preta, num mundo branco onde as mulheres eram azuis e os homens brancos. Algumas horas se passaram enquanto eu estava sentado tentando entender o que tinha acontecido, o que aquilo significava, que tipo de sonho era aquilo? O telefone! O telefone seria a saída!

Rapidamente tentei achar a porta azul de volta e, de repente não conseguia correr. Já sei, nunca consegui correr em meus sonhos, era isso, era um sonho! Droga! Na certa eu sabia que isso não era um sonho, não parecia sonho de jeito nenhum, era muito real pra ser um sonho, eu sentia isso. Parecia que eu corria debaixo d água, uma resistência muito forte a ser vencida com velocidade. Por sorte, eu, aquele homem-forma preta invisível achei a porta azul. Percorri o corredor mais rápido que eu pude, um tanto tempo depois eu cheguei a porta branca, mas ela estava em outro lugar, ela estava à minha esquerda do outro lado onde ela deveria estar. O espelho continuava o mesmo, com a mesma forma preta olhando para ele. Entrei na porta branca e era o mesmo quarto, mas o avesso do primeiro. O mesmo colchão e o mesmo telefone. Peguei o telefone e alguém parece que estava me esperando do outro lado, uma mulher, falando uma língua mais estranha do que a cantada nas músicas alucinógenas daquele cubo imenso. De repente a pessoa pareceu se despedir de mim e bateu à porta. Eu fiquei extremamente assustado com isso, queria logo sair desse pesadelo. Abri a porta e lá encontrei um bilhete com inscrições conhecidas, legíveis e me dizendo apenas: “encontre-me atrás do ônibus azul”.

Ouvi uma porta se fechando, mas ela não vinha da minha esquerda, ela vinha do espelho. Senti angústia, olhei para o espelho, era a minha forma preta, mas não era eu, não acompanhava meus movimentos. Chamava-me com as mãos e começou a dizer com a minha voz: “tome as rédeas! Tome as rédeas!” Fiquei paralisado com aquilo, como se tivesse hipnotizado, enfeitiçado, dominado por algo que eu sabia que era eu mesmo me dizendo: “o ônibus azul está nos chamando!”

Já não controlava meus movimentos, fui em direção ao espelho e ultrapassei-o. Comecei a cair no escuro, meus movimentos se dilataram, meus movimentos dilataram, eu não conseguia mais gritar! Silêncio total! Eu não ouvia meus gritos! Eu não ouvia meus gritos, só ouvia a minha própria voz na minha cabeça dizendo “tome às rédeas! Tome as rédeas!”
Enfim, caí em cima de um colchão, numa sala completamente escura, parecia ser a mesma sala de antes. Então a porta se abriu, um clarão se fez sobre a minha vista e eu escutei o barulho do telefone fora da sala. Não tinha mais o que fazer senão ir atrás. Era uma garagem sem cor, com um ônibus azul e a voz do telefone em uma forma feminina vermelha, dizendo somente “o ônibus azul está nos chamando!”. Ela estava sentada no assento do motorista e eu entrei no ônibus. A porta da garagem se abriu e eu vi um mundo cheio de cores, então esta mulher me levou para fora.

Um comentário:

Mara disse...

contaste certinho!